Protesto na Grécia contra novo arrocho do Governo de esquerda

Pela primeira vez neste ano, e pela enésima desde o primeiro resgate (2010), a Grécia a viveu nesta quarta-feira uma greve geral de 24 horas contra as novas medidas de austeridade num valor total de quase cinco bilhões de euros (17,3 bilhões de reais) a serem votadas nesta quinta-feira pelo Parlamento, e que a maioria da população, os sindicatos e a oposição qualificam como um quarto resgate, embora, ao contrário dos três anteriores, este não envolva uma contrapartida econômica, apenas novos sacrifícios. Os ajustes se estenderão entre 2018 (em agosto desse ano termina o terceiro resgate) e 2021, ou seja, mais de uma década depois do início de uma via crucis que fez o desemprego disparar e o PIB sangrar, com uma contração de 25%. Os deputados neonazistas do partido Aurora Dourada foram expulsos das deliberações e da votação desta quinta por causa de uma agressão do seu porta-voz contra o líder do conservador Nova Democracia, na segunda-feira.

Com adesão desigual, quase nula no comércio, parcial no funcionalismo público e muito mais notável no setor dos transportes – as balsas que ligam as ilhas ao continente pararão por quatro dias seguidos e só voltarão a funcionar no sábado –, a paralisação foi seguida pela primeira vez pelos policiais, apesar de eles serem proibidos de fazer greve. Houve, portanto, menos policiais que de costume nas ruas de Atenas, onde, ao final das manifestações que congregaram milhares de pessoas (12.000, segundo as autoridades), ocorreram confrontos entre policiais e manifestantes, com lançamento de pedras e coquetéis molotov. Nada de novo sob o sol, e sim uma forte sensação de déjà vu, de enésima volta do infrutífero parafuso.

A aprovação dessas medidas de austeridade, apresentadas no Parlamento no sábado à noite –é proverbial o horário peculiar das sessões na Câmara helênica–, endossadas na terça-feira em comissão parlamentar e debatidas nesta quarta-feira, é condição sine qua non para que os credores (a antiga troika) desembolsem a parcela seguinte da ajuda do terceiro resgate, cerca de 7 bilhões de euros (24,2 bilhões de reais) que serão tragados inteiramente pelo pagamento em julho de juros pendentes. Este pacote suplementar de ajustes foi imposto há duas semanas no acordo in extremis entre os credores e o Governo da Grécia para aprovar a segunda revisão do resgate, assinado em julho de 2015.

Com o país de novo em recessão, por mais que as perspectivas do Governo sejam otimistas–prevê uma emissão de dívida em julho, o que seria seu retorno ao mercado desde 2014–, as novas medidas incluem um ajuste de entre 9% e 18% das aposentadorias (o 14º corte desde 2010), reformas energéticas (liberalização do mercado, outra exigência antiga da troika) e uma nova elevação de impostos a partir de 2020 que afetará as pessoas de mais baixa renda, já que se reduz de 8.600 euros (29.700 reais) para 5.700 euros (19.700 reais) o valor mínimo isento de declarar. Além de impedir a negociação coletiva –uma linha vermelha para o Governo, até que acabou cedendo–, outra das medidas de força é a liberalização do horário comercial, com mais abertura aos domingos (de 8 a 32 por ano), um ajuste muito impopular entre o pequeno comércio. Se a Grécia cumprir as metas fiscais, poderá expandir o gasto social a partir de 2019, com subsídios para as rendas mais baixas e recursos contra a pobreza infantil.

“2019? Sobreviveremos? Porque isto não é mais que prolongar uma agonia dolorosa”, diz por telefone Andonis Pavlopulos, aposentado dos estaleiros de Perama, que viu seu benefício se reduzir de quase 3.000 euros (10.350 reais) em 2009 para 1.050 (3.600 reais) e agora sofrerá um novo corte, de 18%. “Mantenho meus dois filhos que não têm trabalho, suas esposas e quatro netos, três casas no total... Vejo a deterioração de meu bairro, os mais velhos afundando na miséria e os jovens emigrando, e não posso entender o discurso triunfalista do Governo. Pode ser que tenham razão, que as medidas funcionem [o superávit primário supera o exigido pela troika], mas no final nos dirão aquilo: ‘a intervenção foi um sucesso, mas o doente ficou na mesa de operações...’”

Com as pesquisas esmagadoramente contra –dão entre 10 e 15 pontos de vantagem à conservadora Nova Democracia–, o Governo comandado por Alexis Tsipras fará valer pelo mínimo (153 cadeiras de 300) este novo trago amargo, com as fileiras cerradas (as do Syriza e as de seu parceiro da coalizão, Gregos Independentes, ANEL) para o que no Executivo insistem em qualificar como último esforço prévio à saída do túnel dos resgates. Tsipras tem defendido as medidas adicionais com a promessa de que cada corte será acompanhado de uma contramedida de alívio e que o encerramento da segunda revisão do resgate (que está pendente há meses, e se supõe terminará formalmente no próximo Eurogrupo, em 22 de maio) franqueará a negociação sobre o alívio da dívida, que beira 180% do PIB.


Não se esperam surpresas na votação das medidas de austeridade, em um Parlamento ainda consternado pela agressão de Ilias Kasidiaris, porta-voz dos neonazistas, contra Nikos Dendias, ex-ministro do Interior e porta-voz da ND. Por isso, o comitê de ética do Parlamento excluiu formalmente nesta quarta-feira os deputados neonazistas do debate e votação das medidas. A direção do Aurora Dourada está sob prisão domiciliar, enquanto prossegue o julgamento em que é acusada de vários delitos, como pertencer a um grupo criminoso, de modo que a maioria de seus deputados, entre os quais Kasidiaris, só podem sair de casa para ir ao Parlamento.

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