Rebelião no Compaj é a mais violenta da história do sistema prisional no Amazonas

Laís Motta / portal@d24am.com
O comitê de crise, criado para tratar a rebelião, atendeu à imprensa em entrevista coletiva na manhã desta segunda-feira.
Foto: Laís Motta
Manaus – A rebelião no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), que começou na tarde deste domingo (1) e terminou após 15 horas, deixou 60 mortos, todos presidiários. Segundo o secretário de Estado de Segurança Pública (SSP), Sérgio Fontes, essa foi a maior rebelião da história do sistema prisional do Estado, marcada por muita violência, inclusive com decapitações e corpos carbonizados.
Foi instaurado um inquérito policial para responsabilizar a autoria dos homicídios. O comitê de crise, criado para tratar a rebelião, atendeu a imprensa em entrevista coletiva na manhã desta segunda-feira (2) e repassou as informações sobre as ocorrências nos presídios.
“Tivemos esses eventos no sistema prisional: a fuga no Ipat, que culminou no mesmo dia, horas mais tarde, com a rebelião no Compaj e as mortes que nós tivemos. Infelizmente, a unidade prisional estava nas mãos dos internos, mas nós conseguimos levar à negociação a bom termo e liberar os reféns”, disse o secretário de Estado de Administração Penitenciária (Seap), Pedro Florêncio.
Somente do Instituto Penal Antônio Trindade (Ipat), 87 presos fugiram no domingo. Até a manhã de hoje, a SSP estimava 40 a 60 presos recapturados. No Ipat, há em torno de mil detentos. Já no Compaj há outros 1.230, segundo a Seap.
Foi também do Ipat que foram colocadas, para dentro do Compaj, as armas utilizadas na rebelião, informou Florêncio. “Eles receberam apoio do semiaberto. Eles fizeram um buraco na muralha, que divide os dois presídios e foram apoiados pelo semiaberto. As armas foram passadas pelo pessoal do semiaberto”, disse Florêncio, ressaltando que o buraco na muralha também foi utilizado por presos para fugirem do Compaj. Houve intensa troca de tiros entre os presidiários e os policiais militares.
O motivo da rebelião foi uma briga entre facções rivais do Amazonas, a Família do Norte (FDN) e o Primeiro Comando da Capital (PCC). Todos os mortos foram membros do PCC, desafetos da Família do Norte e estupradores, conhecidos entre os presos como ‘jack's’, informou Pedro Florêncio, ao dizer que a FDN liderou a rebelião.
“Isso é uma problema de narcotráfico. O presídio é um reflexo do que tem aqui fora. É disputa por espaço, disputa por boca de fumo, disputa por mercado, disputa por rota. Tudo tem a ver com uma única coisa: dinheiro”, disse Sérgio Fontes ao explicar o motivo da briga entre as duas facções.
Sérgio Fontes destacou que os presidiários agiram com muita violência, esquartejando muitos internos, ao classificar a rebelião como a maior do sistema penitenciário do Amazonas. Um dos casos de violência ocorreu com o ex-policial militar Moacir Jorge da Costa, o Moa, que foi morto carbonizado, ao ter sua cela incendiada. 'Moa' cumpria pena no 'seguro', área de isolamento onde ficam somente os presos que correm risco de vida. Ele ficava sozinho em uma cela.
Fontes já havia classificado a rebelião, na noite do domingo, como um ‘massacre’, enquanto havia a confirmação de seis mortos. Um inquérito policial foi instaurado para apurar as ocorrências da rebelião. “Essas 60 mortes não vão ficar em vão. Nós não vamos deixar de apurar e os responsáveis serão punidos. Senão todos, porque podemos não identificar todos, mas a liderança certamente será responsabilizada por esses homicídios”, afirmou Fontes.
Identificação dos corpos
Um contêiner frigorífico foi alugado para alojar os corpos, já que o Instituto Médico Legal (IML) tem apenas 20 câmeras para aguardas corpos, informou Fontes. A liberação deve durar até cinco dias, segundo Fontes, após serem feitos os exames de necropsia. Além de ter a função de entregar o corpo aos familiares, o exame produzirá provas para averiguar como ocorreram as mortes e quem são os responsáveis. O secretário de segurança também informou que a maior parte do Compaj é coberto por câmeras, o que fará ser possível investigar os autores dos homicídios.
Reféns
Ao todo, foram feitos 86 reféns no Compaj, sendo 12 funcionários da empresa Umanizzare, que presta serviço para o sistema penitenciário do Amazonas, e os próprios detentos, que foram presos em grades, em alguns casos. Segundo Fontes, alguns desses detentos reféns foram mortos.
Durante a negociação, os presos pediram a estadia de todos presos no sistema penitenciário do Amazonas, a entrada da polícia apenas acompanhada do representante dos Direitos Humanos e do juiz da Vara de Execuções Penais, Luís Carlos Valois, a melhoria da alimentação da unidade, a integridade dos rebelados, entre outros pedidos.
Às 7h desta segunda, os últimos reféns foram liberados e ocorreu o fim da rebelião. Nesse horário, ocorreu também a entrega dos corpos e de cinco armas de fogo usadas pelos detentos, sendo quatro pistolas e uma espingarda calibre 12. Fontes negou que os detentos tenham roubado armas de policiais.
As armas foram apreendidas na manhã desta segunda-feira
Foto: Divulgação

A estimativa é que haja um número maior de armas utilizadas, principalmente de armas brancas usadas para esquartejar os corpos. Apenas após a revista do Batalhão de Choque no Compaj é que será possível informar o número exato de armas, segundo Fontes.
A SSP ainda não conseguiu contabilizar o número de presos foragidos do Compaj e ainda estava trabalhando na contagem e retomada da normalidade do presídio até o fim da manhã desta segunda.
Fugas
Em julho de 2003, no governo Omar Aziz,176 detentos do Instituto Penal Antônio Trindade (Ipat) se beneficiaram com a falha no controle e fugiram, concretizando a maior fuga em massa já registrada no Estado e uma das maiores do País. Os presos escaparam enquanto todo o policiamento estava mobilizado para a revista na ala feminina da Cadeia Pública Raimundo Vidal Pessoa, no Centro.
Em julho deste ano, a direção da Raimundo Vidal descobriu que um grupo de pelo menos dez detentas usava com frequência aparelhos celulares e postavam fotografias delas dentro da cadeia nas redes sociais. No mesmo mês, 21 detentos ficaram feridos após um princípio de rebelião. Em agosto, a Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos (Sejus) instaurou uma sindicância para apurar as circunstâncias da fuga de um detento que, após pular o muro da cadeia, conseguiu pegar um ônibus da linha 704.
Dois presos foram mortos e outros 11 ficaram feridos em rebeliões motivadas por ‘disputa de poder’ dentro do Ipat e na Unidade Prisional do Puraquequara (UPP) em 24 de agosto daquele ano.
Em outubro de 2013, os detentos da cadeia pública de Manacapuru (a 84 quilômetros de Manaus) fizeram uma rebelião em protesto à alimentação ruim e à superlotação do presídio. A unidade tem capacidade para 23 apenados, mas abrigava 103 presos, sendo 96 na ala masculina e sete na ala feminina.

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