Imagens mostram momento em que mulher é atingida por tiro de policial


Imagens de câmeras de segurança mostram o momento em que uma investigadora da Polícia Civil atira na cabeça de uma mulher após se irritar com o barulho de uma festa de confraternização, na última sexta-feira (23) no bairro São Francisco, em Curitiba.
A policial civil deve responder em liberdade por tentativa de homicídio, com dolo eventual, quando não há intenção, mas se assume o risco de matar.
A vítima, Rosária Miranda da Silva, de 50 anos, teve perda de massa encefálica e está internada em estado gravíssimo na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Cajuru. Ela é copeira de uma empresa que fazia uma confraternização de fim de ano.
A vítima foi atingida pelo projétil aos 2:30 do vídeo:
b606ca54-91cb-4a4b-9c7d-52f9b1476a28O crime aconteceu na madrugada da última sexta. A policial civil se irritou com o barulho da festa e decidiu usar sua arma para acabar com a festa. Como não houve flagrante e a investigadora se apresentou com um advogado na segunda-feira (26), ela não foi detida.
A investigadora trabalha no Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes (Nucria), em Curitiba, mas seu nome não é confirmado pela polícia.
De acordo com o delegado Fabio Amaro, chefe da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa, policiais investigados geralmente têm identidade preservada. “É comum em investigações em face de policiais, até a formação de culpa, a não divulgação do nome”.
Crime
Segundo um dos funcionários da lanchonete que cedeu espaço para a empresa que realizava a festa, a policial disparou quatro tiros. “Primeiro ela veio aqui na frente do portão, falou para baixar o som. Desligaram o som, a moça que levou o tiro estava com a sacola na mão cumprimentando as pessoas para ir embora na hora que levou o tiro. As imagens mostram que o som foi desligado. O pessoal disse pra ela (policial) que a festa estava acabando”, conta.
Após a perícia, e relatos de testemunhas que constataram a trajetória da bala, a investigadora foi identificada, mas não estava em casa quando a polícia foi até elá na sexta.
De acordo com o delegado Fabio Amaro, a policial alegou que ficou irritada com o barulho da festa de confraternização na lanchonete, que fica na Rua Mateus Leme, 2366.
A investigadora disse que antes de atirar jogou “bombinhas” para assustar os membros da festa e acabar com o barulho. Sem sucesso, ela teria decidido disparar tiros a esmo e que acertou a cabeça da copeira por acidente.
“Ela reside em uma casa, próxima ao local onde acontecia a confraternização. Segundo seu relatório, no termo de interrogatório, ela alegou que a festa se iniciou por volta das 19h. Já era por volta de meia-noite e meia, uma hora, e o barulho não cessava. Em razão disso, ela teria anteriormente atirado algumas bombas, bombinhas de fogos de artifício, para que o pessoal ficasse mais tranquilo, diminuísse a entonação se voz”, relata o delegado.
Estacionamento onde acontecia a festa
Estacionamento onde acontecia a festa, no Centro Cívico.
O funcionário que pediu para não ser identificado afirma que a versão não é verdadeira.
“Eu vi nas câmeras. O tiro que veio pega de cheio na cabeça da guria. É mentira dela (da policial) que disse que a bala recocheteou. Ela atirou em cheio. Ela sumiu três dias, pra fugir do flagrante. Tem as marcas de bala aqui. Ela deu dois tiros para cima e dois em direção do povo”, garante.
A janela da casa da policial fica a 70 metros de onde estava a copeira.
De acordo com o delegado, uma árvore impede a visualização de um ambiente para outro. A policial disse que usou a arma para atirar no chão, mas o tiro recocheteou e acertou a vítima.
“Por fim, totalmente transtornada, ela acabou realizando esse gesto impensado ao qual se utilizou da pistola da instituição, colocou a mão, segundo o que ela diz, na janela da casa e, sem olhar, efetuou um disparo para o chão, que segundo diz, recocheteou no muro e acabou atingindo a vítima”, conta.
Rosária foi atendida pelo Siate. A Polícia Civil só foi acionada quando a vítima já estava internada no hospital.
Indiciamento 
A policial foi indiciada e a arma apreendida e encaminhada à perícia. Uma investigação também também deve ocorrer na Corregedoria da Polícia Civil. A investigadora foi suspensa da atividade de campo e deve exercer funções administrativas até a conclusão do processo.
O delegado afirma que não prendeu a policial por estar seguindo a lei.
“É certo que a gente não espera uma conduta desse talante de um policial que é pago para servir e proteger, que tem que ter total controle de seus atos. Entretanto, é custoso falar que também nós estamos engessados pela lei. O código de processo penal é bem claro em indicar que uma pessoa pode ser presa somente em situação de flagrante delito ou então por mandado judicial”, afirma.
Fabio Amaro confirma que a atitude da policial pode ter sido uma manobra para escapar da prisão imediata. “É comum das pessoas que se envolvem em crimes, contra a vida principalmente, se antecipar à conduta da autoridade e apresentar-se espontaneamente na delegacia, uma vez que essa apresentação espontânea supre essa necessidade do pedido de prisão”.
De acordo com o delegado, não há previsão para um pedido de prisão contra a policial.
As imagens das câmeras de segurança da lanchonete foram encaminhadas à polícia. A reportagem não conseguiu contato com o advogado da investigadora.

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